Minha descida aos infernos

Não é um título chamativo, só para que você leia este texto. Eu fui mesmo. Semana passada.

Mas não desci, não entrei em caverna nenhuma. Fui de busão, linha reta.

Sabe quando sua mochila olha de canto para você, dá aquela piscada e diz “vamos pôr o pé na estrada”? Estava na hora, dois meses parada, a coitada já estava mofando. Ir para onde? “Ainda não conhecemos Hiroshima”, pensamos juntas. Mas eu queria fazer uma viagem de verdade e ir para um lugar turístico não era o que eu necessitava naquele momento. Queria uma viagem com v maiúsculo. Daquelas que você vai de mochila e não de mala. Daquelas viagens que te fazem cair e levantar. Daquelas que te empurram para fora da tua zona de conforto e que deixam marcas. Daquelas que você vai sozinha e volta com perebas.

Daí aconteceu o que alguns chamam de destino, fatalidade, instinto, física quântica ou a mão do coisa te chamando. Estava assistindo um documentário sobre Shining de Stanley Kubrick (Ó, tô falando, a mão do capeta) quando minha mochila começou a me infernizar (ó, de novo). Comecei a pesquisar sobre lugares insólitos para viajar no Japão e apareceu um templo no Monte Osore, lá em cima, quase na ponta de Honshu. Diz a lenda que se trata do terceiro lugar mais sagrado do Japão. Longe, isolado, de difícil acesso e o principal, o que me fez decidir na hora: a porta de entrada dos infernos.

Como o templo é budista, decidi pesquisar um pouco sobre o mundo dos mortos para o budismo mas cansei rápido. Achei complicado e nem o Mircea Eliade me convenceu, trocentos mil infernos, é muita coisa. Fui de Virgílio mesmo. Capenguei para chegar tanto quanto Eneias.

Preparei a menor mochila que pude pois sabia que viajar no Japão é fácil, você pode parar em qualquer canto que vai ter uma kombini (convenience store) se faltar algo de extrema importância (tipo protetor solar ou… comida). Erro fatal. Cheguei no meu destino e não tinha nada perto da estação de trem. Nada. Nem um café. Nem um bar. Nem um nada. Era um lugar urbano, tipo cidade industrial perto de um porto. Eu tinha que esperar 3 horas para pegar o ônibus que me levaria ao submundo e minha barriga estava roncando. Andei 7,2 km para poder comprar um café da manhã que tomei sentada na calçada…

⊗ Sapecada na panturrilha: feito.

⊗ Perebas alérgicas solares: feito.

Osorezan

No ônibus que leva ao Bodai-ji, encontrei os últimos 4 turistas com os quais trocaria umas palavras nos próximos dias. Há apenas três ônibus por dia, 4 turistas indo, 4 voltando. No máximo. Não é muita gente. O ônibus serpenteia montanha acima, numa floresta densa, misteriosa, ao som de mantras budistas (um ponto para o pequeno município que valoriza, com uma simples gravação, o principal atrativo da região).

Antes mesmo de sair da floresta e ver o lindo lago rodeado de montanhas, você sente que está chegando. Nada de supernatural. Nada de sentir a energia do além. Algo mais terra a terra: você sente o cheiro de… ovo podre? Não, não chega a isso, não tem nada de nojento no odor tenaz do enxofre.

Na chegada, foi tudo muito rápido: senti o enxofre e a adrenalina subiu em um segundo. “Tô chegando nos infernos, tô chegando nos infernos”, pensei. Apareceu então o lago, as montanhas – wow, sugoi – disseram os japoneses do ônibus e eu pensei “sugoi (show, genial, lindo) pra dedéu”! Daí vi o rio e a ponte, comecei a pular sentada como uma criança e gritei “o rio Estige, o rio Estige”. O ônibus parou, fui  a primeira a sair, pulei com o pé esquerdo numa poça esverdeada, senti a lama salpicar minhas perebas solares, sorri e me dirigi ao centro de peregrinação onde iria dormir.

Andei bem devagar pois não sabia onde estava indo e estava receosa. O que eu não contei para vocês é que foi difícil conseguir o número de telefone do templo para reservar, não dá para reservar on-line, óbvio, nada de facilitar a vida do peregrino. Tive que pedir para uma amiga japonesa ligar para reservar pois eles não falam inglês e eu imaginei que falaria algo do tipo “Hello, Hades? I want do make a reservation please? Just in the entry of your realm, is it possible?” – e que os monges não me levariam muito a sério. Enfim, minha amiga reservou mas não perguntou nada sobre as instalações e eu achava naturalmente que ia dormir no chão, sem coberta, com minha trouxinha de roupa como travesseiro rodeada por monges rezando a noite inteira.

Claro que isso não aconteceu, o hotel dos infernos é chique: é um Ryokan com um baita onsen maravilhoso.

Precisamos falar sobre Ryokan

É um hotel típico japonês, minimalista, onde você dorme em um futon sobre o tatami. O Ryokan convida à contemplação: vai ter um jardim japonês, uma vista especial da janela, uma fonte com água fluindo, enfim, vai ter algo zen. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras então lá vai meu quarto:

Quem aí acha que dá dor nas costas?
A mesa antes de eu colocar toda minha bagunça em cima dela…

Me apaixonei na hora e resolvi reservar uma noite extra, pensei que teria um dia inteiro a mais para ficar sentada nessa mesinha escrevendo e tomando chá verde… Só que isso não aconteceu. Mal sabia eu que as trilhas do além são árduas e que eu ficaria com as pernas para cima, olhando pela janela e gemendo de dor muscular…

À seguir…

Querido leitor, desculpe por esse corte radical aqui. Terei que escrever esse texto em várias partes pois:

  1. Ele está ficando longo e ainda é o primeiro dia da viagem, 11:00 da manhã.
  2. Despois de ter sofrido horrores caminhando nessa viagem, percebi que estava completamente fora de forma e prometi a mim mesma que voltaria a fazer ginástica. E minha aula começa daqui a 20 minutos… 

Não vou demorar para escrever a segunda parte. Prometo (emoji com dedos cruzados e emoji piscando). 

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Publicado por

Marcela Meirelles

2 blogs: - One photoblog in French: https://marcelameirellesphotoblog.com - One blog in Portuguese: https://essacoisadeescrever.com

2 comentários em “Minha descida aos infernos”

  1. Quer aventura? Pega busão cheio no Brasil.😁

    Em 27 de jul de 2017 6:17 AM, “Essa coisa de escrever” escreveu:

    > Marcela Meirelles posted: ” Não é um título chamativo, só para que você > leia este texto. Eu fui mesmo. Semana passada. Mas não desci, não entrei em > caverna nenhuma. Fui de buzão, linha reta. Sabe quando sua mochila olha de > canto para você, dá aquela piscada e diz “vamos pôr o pé n” >

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  2. Eu queria ler a parte seguinte. Eu estau com pressa!! Desculpe me do meu portugues ja faz tempo que eu nao estau escrevendo.😂😂. Nao esquece de me avisar quando a segunda parte vai estar disponivel!!
    Beijos da India

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