Fukagawa Edo Museum de Tokyo

É o típico museu onde o turista estrangeiro não vai. E é uma pena.

Claro que se você vier para o Japão de férias, por um curto período, vai visitar lugares conhecidos e recomendados nos guias. Normal. Se você mora aqui, também. Percebi que, em um ano de Tokyo, apenas conheci um lado da cidade, o lado mais in, o clássico: Asakusa, Ueno, Shinjuku, Shibuya, Yoyogi, Roppongi, Ginza, Minato, Naka-Meguro…

Agora, chegou a hora de explorar o oculto. De se perder por aí.

Participei na semana passada de um encontro entre japonesas e estrangeiras com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre a cultura japonesa e falar, opa, tentar falar, japonês. Ou seja, fechar o livro e cair na vida.

Visitamos Fukagawa, que fica em Koto-Ku. Um lugar calmo, charmoso, que cheira história. Era o bairro mercantil da capital Edo (antigo nome de Tóquio, 1603-1868). No dia em que fomos, estava chovendo e nos concentramos no museu. Mas como ele é uma réplica do bairro em tamanho real, dá a impressão que você está do lado de fora passeando pelas ruas, mesmo estando dentro.

É muito bem feito. Enquanto você passeia pelas lojas e casas de 1830 e observa como era a vida dos comerciantes da época, o gato mia, a noite cai, começa a chover, o galo canta, o dia raia, o vendedor grita…

Com crianças

Se você está visitando Tóquio com crianças (ou se você se sente criança como eu), vale a pena dar uma passada no museu. Para se divertir com as galinhas cocoricando mas também, para aprender um pouco. A primeira parte da visita, mais teórica (nada está escrito em inglês, vale a pena pegar um guia) fala sobre a vida das famílias e mostra gravuras da vida cotidiana.

Apresenta a vida das crianças, que ficavam com as famílias até completar 10 anos, para em seguida, deixar o lar e ir aprender uma profissão: vendedores ambulantes, comerciantes, ajudantes nas tarefas domésticas, alunos de leitura/escrita com os samurais ociosos etc.

– “Nossa, apenas com 10 anos!” se surpreenderam minhas parceiras de visita. Lembrando que na Idade Média na Europa, com 5 anos as crianças já trabalhavam nos campos, com 7 aprendiam uma profissão e era comum ver crianças com 13 anos na guerra… Mais próximo da gente, na Primeira Guerra Mundial as crianças lutaram ao lado de adultos e na Segunda Guerra Mundial o papel das crianças na defesa de Berlim é fato.

Acho interessante os pais explicarem aqui, como evoluímos (que longa caminhada foi!) e chegamos hoje na defesa dos direitos infantis e na fragilidade contemporânea destes direitos. Por que não falar daquela marca que emprega mãozinhas infantis para fabricar nossos tênis na Tailândia e daquele país que emprega crianças e adolescentes no Exército?

Práticas transmitidas de geração em geração

Sempre me interessei pela origem das coisas por isso adorei ir nesse museu. Tradições que ainda estão bem vivas na sociedade japonesa atual que me marcaram:

  • A cantiga de ninar da época Edo que é cantada até hoje e que as japonesas que me acompanhavam cantaram. Momento lindo e inesquecível.

  • A falta de espaço, e o minimalismo decorrente, das casas japonesas.
  • A presença da crença na vida cotidiana: altar na rua, altar dentro de casa, o objeto que protege a casa (esqueci de anotar o nome mas lá vai a foto), a cor vermelha que repele o mal…

  • A reciclagem. No período Edo, essa coisa de reciclagem (entendam os que entenderem, que vontade de pôr a carinha piscando aqui mas estou em greve de emojis) já existia.

Tudo era reutilizado.

Exemplo: as partes do Kimono. Quando um kimono ficava velho, era descosturado e suas parles vendidas como tecido avulso. Usado para fazer fraldas, roupas novas ou até pano de limpeza. Quando o trapo estava tão esfarrapado que realmente não servia para mais nada, era queimado e jogado como adubo na plantação. Daí o algodão crescia e o ciclo recomeçava.

Hoje em dia é uma tradição que existe, hum, bem… em partes. Quem mora no Japão sabe que separar o lixo aqui é um pepino. Não pesquisei muito ainda sobre isso, mas temos 6 lixos diferentes, e espero realmente que após todo esse esforço pessoal o lixo seja reciclado corretamente. Lixo reciclado, nota 10 para os japoneses. Por outro lado, o objeto usado  não me parece ter tanto valor. Claro que existem brechós e mercado das pulgas mas a impressão que tenho é que o novo é mais valorizado: trocar de celular todo ano e comprar roupa nova em cada estação me parece de praxe.

Enfim, nem tudo é 8 ou 80. O Japão contemporâneo é uma mescla entre tradição e modernidade. O Fugakawa Edo Museum exemplifica, a meu ver, esse movimento constante entre o passado e o presente.

Lado prático

Não esqueça de comer o Fukagawa-meshi, prato tradicional da região, com arroz e mexilhões.

Endereço: 1-3-28 Shirakawa – Koto – Tokyo 135-0021.

Website: www.kcf.or.jp/fukagawa

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Publicado por

Marcela Meirelles

2 blogs: - One photoblog in French: https://marcelameirellesphotoblog.com - One blog in Portuguese: https://essacoisadeescrever.com

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